Culturomaniaco's Blog

9 de Junho de 2009

Marina Nabais, a menina que dança

Filed under: Uncategorized — culturomaniacos @ 10:39

Como é ser-se bailarina em Portugal? Para Marina Nabais é fazer do corpo a sua casa.

Joana Pimpista

Quando lhe perguntamos se quer falar um pouco sobre a sua nova criação, hesita e responde que não. É uma questão de superstição, não quer revelar coisas que dizem respeito a um projecto que ainda não está criado. “Pode dar azar”. Não insistimos, com as superstições não se brinca. Coisa de artista? Como é ser-se bailarina em Portugal? Marina Nabais, 35 anos, trabalha na dança há 12 e só recentemente encontrou o caminho para esta definição. Que não passa por ser bailarina. Fala de uma dança global onde as funções de intérprete, coreógrafa e professora se cruzam e se confundem naquilo que denomina como o microcosmos da dança. Porque em cada uma destas variantes encontra componentes essenciais que alimentam a necessidade vital que tem de dançar: pela vertente comunitária que isso lhe proporciona, pela componente relacional e pela solidão do processo criativo.

O meu corpo é a minha casa

A necessidade de dançar, de explorar os limites do corpo e do movimento levaram Marina Nabais a procurar a School for New Danse, em Amsterdão, após três anos numa Escola Superior de Dança que considerava fechada em si própria. Esta vontade de experimentar a cena contemporânea levou-a até Amsterdão, mas só agora, à distância, tem consciência da influência que essa experiência teve na sua maneira de dançar e criar. Num Portugal embrenhado no negativismo e na baixa auto-estima, o segredo está em saber o que se quer fazer, onde se está, para onde se quer ir. Para Marina, o talento também é isto: a vontade e a necessidade de se saber que se faz a coisa certa. Foi isso que a fez passar pelo ballet em pequena, pela dança espanhola ou pelo jazz. Da mesma forma que foi nómada na dança, foi-o na vida, nasceu em Angola, viveu no Brasil e veio então para Lisboa. Sentindo-se forasteira, era na dança que encontrava a sua casa. “O nosso corpo pode ser a nossa casa” e uma aula de ballet é igual em todo o lado, por isso esta necessidade de dançar revelou-se a melhor forma de encontrar um equilíbrio, o seu espaço. Um espaço portátil que pode levar consigo – o corpo.

“Os artistas também são ratos de laboratório que necessitam de se isolar para criar”. Destaca a importância desta componente de investigação e de exploração como essenciais para a evolução da dança que se faz em Portugal. Zonas de investigação não rentáveis que são independentes do público, a parte científica da dança. Esta investigação de base sobre o movimento permitirá encontrar estratégias para evoluir e para posteriormente chegar aos públicos. Mas estes públicos existem, sabem o que é a dança contemporânea? Responde-nos com outra questão: “e o que é a dança contemporânea?”. Já não se pode falar de dança contemporânea, diz, a dança agora é tudo, é a multidisciplinariedade que se estende à formação para a arte, à dança inclusiva, à danço-terapia. Dançar é uma necessidade.

O programador como figura essencial

Em relação à programação de dança feita em Portugal, considera que se evoluiu com passos de gigante nos últimos vinte anos. Não sente que se programe pouca dança; sente, sim, que vai chegando de tudo a Portugal, que temos acesso a muita coisa. É uma evolução que se faz em passos curtos: há salas de espectáculos para 200 lugares que têm 15 pessoas a assistir.  Mas já é uma vitória.

A criação da figura de um programador é uma medida essencial na sua perspectiva. Não se programa pouca dança, mas quem programa tem pouca sensibilidade para o fazer, trata-se de uma questão de mentalidades. Para Marina, o teatro foi sempre mais visível e mais comunicado, houve sempre mais teatro e mais gente da televisão a fazê-lo.

Quem é este programador que considera essencial criar? Fala da necessidade de colocar à frente dos teatros e da Cultura alguém isento politicamente, que não faça da cultura um mote de campanha eleitoral e que não esteja lá “apenas porque é Engenheiro ou Arquitecto”. “É esta a parte da evolução que nos falta”, diz, defendendo a necessidade de cargos especializados com formação para serem, ele próprios, criadores de públicos. “Neste sentindo a dança está muito à frente, a discriminação que sofreu faz com que haja um produtor em cada coreógrafo”, sorri.

Marina também é produtora. O seu percurso profissional fê-la perceber que não se queria associar a nenhuma companhia e a sua participação em diferentes projectos com gente como Lúcia Cigalho, Luís Castro, Peter Michael Dietz ou Aldara Bizarro, onde experimentou a multidisciplinaridade na dança explorando o seu lado teatral e físico, fazem-na começar a encontrar a sua estética de trabalho. Em 2003 cria “a menina dos meus olhos”, associação cultural, onde alia a sua veia de criadora à de pedagoga. Actualmente, “a menina…” desenvolve formação na área da dança e das artes performativas, mas também faz espectáculos.

É mais uma estrutura de dança. Perguntamos-lhe se não sente que há demasiada oferta em Lisboa. “Para já há espaço para todas estas estruturas”, responde. Mas define como muito importante que os objectivos de cada uma delas sejam promover as criações de vários artistas, abrindo-se à diversidade. É saudável proporcionar pontos de vista diferentes, defende. Considera que, em Portugal, estamos sempre numa posição de vitimização; na verdade os apoios existem e o Estado até os dá. O problema está na organização e na forma como os apoios são distribuídos. “Fui convidada para um espectáculo na Turquia, não obtive qualquer apoio do Estado ou do Ministério da Cultura, tivemos de recusar o convite”.

“Não sou professora, sou artista”

Marina considera essencial despertar as pessoas para a sua fisicalidade e aborda a questão do desenvolvimento do trabalho do corpo como necessidade inerente à própria educação. Esta componente de formação está presente ao longo do seu percurso. Coreografar, criar é um processo solitário. Dar aulas é um processo de partilha. Ambos se complementam. Mas não dá aulas; gosta de lhes chamar oficinas porque são um espaço de troca, de partilha de criatividade. “Não sou professora, sou artista” e é esse o objectivo das suas oficinas, descobrir o artista que existe em cada pessoa desenvolvendo o equilíbrio entre o corpo e a mente. É no ensino que se deve começar aos poucos a implementar a dança. Uma das medidas que aponta é a introdução da História da Dança nas disciplinas de História da Arte, no Ensino Secundário. Porque a dança é maltratada e esta pode ser uma primeira medida para a sensibilização de públicos e para a sua criação.

Mesmo assim, continua a dançar, a criar e a ensinar. Ainda há espaço para se ser “cientista do movimento” e começa-se, lentamente a promover uma mudança de mentalidades. E assim a menina dança.

8 de Junho de 2009

Os Macacos do Chinês não querem cantar “em vão”

Filed under: Música — culturomaniacos @ 21:57
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Um Hip Hop diferente, mais evoluído e aberto, ao estilo londrino é o que trazem os Macacos do Chinês a Portugal. Uma mistura que apesar de próxima do Hip Hop, se distancia da receita habitual.

Lara Ribas

macacos do chinesQuem conhece Miguel, vocalista da banda, consegue absorver a calma, sinceridade e alegria que transmite, uma forma de estar leve e agradável que pouco transparece nas músicas dos Macacos do Chinês, banda formada “a sério, a sério, há cerca de dois anos” por ele, pelo seu primo André Pinheiro (Apache) e Pedro Silva (Drupez). Miguel (Skillaz) tem gostos musicais que vão muito além do Hip Hop, e isso espelha-se nas músicas dos MDC. “Salada de frutas ou Cozido à Portuguesa” é como Miguel chamaria a este género se pudesse criar uma nova categoria. Não consegue defini-lo de outra forma, uma vez que a música que produz é sempre resultado de novas tentativas que “se resultarem, muito bem; se não, seguimos para a próxima”. Confessa que, apesar de o seu papel na banda estar conotado com o Hip Hop e o Rap, estes foram géneros que pouco fizeram parte do seu crescimento. Ouviu sempre mais bandas como “Pearl Jam, Soundgarden, Nirvana e as poucas coisas de Hip Hop que ouvia eram os Beastie Boys e os Cypress Hill” tendo ainda tocado no seu rádio bandas de nu-metal como Korn e Deftones. Foi precisamente quando ouviu pela primeira vez este género pouco tocado em Portugal – o Grime – que se sentiu mais ligado ao Hip Hop. Explica o Grime como sendo um “Hip Hop mais leve, que não está necessariamente ligado aos temas habituais do Hip Hop nacional, como as críticas ao sistema” – na sua opinião, muitas vezes sem consistência. É por isso que admira Sam the Kid – com quem gravou já uma música – porque sempre conseguiu distanciar-se deste cantar “em vão” do Hip Hop nacional. Ao pegar um álbum de Sam the Kid “ouvem-se temas como a cidade, o campo, o amor, o trabalho…”. E é por isso que Miguel consegue rever-se nele, por “gostar mais de cantar a contar histórias, criticando directamente sem ser tão bruto, mostrando coisas do dia-a-dia” e criticando-as com a consciência do que realmente se passa. Por outro lado, explica que “apesar de sentir vários géneros de música, como o reggae, o rock e muitos outros”, só consegue exprimir-se “pela rima”.

Em português lá fora

MDCLondres, Amesterdão e Berlim foram cidades que já receberam os MDC. Tocam muito fora de Portugal, houve mesmo momentos em que tocaram “mais lá fora que cá”. Ao início, confessa, houve algum receio pois iria cantar em português e ninguém compreenderia o que estava a dizer. No primeiro concerto, no Cargo Club, em Londres, achou mesmo que lhes “iriam atirar tomates, ou algo do género”. Mas não. A banda foi muito bem recebida e as pessoas que lá estavam vieram ter com eles dizendo que “não tinham compreendido nenhuma das palavras, mas que o feeling estava lá”. Miguel considera que o facto de terem as sonoridades do Dubstep e do Grime ajudou a esta recepção positiva, aliado ao facto de o público se ter interessado pela conjugação destes géneros com a guitarra portuguesa, instrumento associado ao fado e à tradição e muitas vezes desconhecido de quem os ouve lá fora.

“Gostamos”, diz com humildade, “de ajudar a trazer a cultura portuguesa ao resto do mundo, quer com a guitarra portuguesa, quer com a língua”. Considera também importante trazer uma versão mais actual da música portuguesa sem perder de vista as sonoridades tradicionais. Os MDC fazem-no quer com a presença da guitarra portuguesa em todas as músicas, quer com a presença de temas tipicamente portugueses – como “Saudade”. “Plutão”, a primeira música que os MDC gravaram, é um som muito Dubstep que serve de apresentação da banda e representa “o som mais pesado, o mais longe que os MDC podem ir”. Miguel explica que sempre teve receio da reacção do público perante a mistura de géneros musicais tão diferentes. Na sua opinião, haverá sempre grupinhos fechados que não reconhecem músicas que vão além aqueles parâmetros musicais que ouvem, mas os horizontes vão-se abrindo. “Em Portugal os horizontes estão a abrir-se e a internet tem tido um papel importante, permitindo, com o MySpace por exemplo, ir ouvindo sons dos vários cantos do mundo. Quem me dera que o caminho seja esse sempre, ouvir música de todos os estilos só com a capacidade de definir o que é realmente bom e o que é mau”, diz. A internet foi a rampa de lançamento dos MDC, através do MySpace que lhes permitiu dar os primeiros concertos fora de Portugal. Skillaz, que é “do tempo em que um álbum era suficientemente barato para ser comprado”, não tem medo das perdas de vendas por causa da net. Na sua opinião, aquilo que realmente dá (dinheiro e energia para continuar a tocar) são os concertos, sendo a internet “nunca um prejuízo e sempre uma mais-valia”, ajuda o público a conhecer o trabalho dos artistas. Até porque o álbum funciona apenas como um BI. Desde sempre que quis ter um CD seu, “mesmo que já não existissem CD’s, iria fazer um”. O papel do novos talentos Fnac (a convite de Henrique Amaro da Antena 3 do qual resultou o álbum com o nome “Ruidos Reais”, e onde participaram outros artistas ainda desconhecidos na altura, como Rita Red Shoes), a nova sonoridade, o burburinho que os media fizeram à volta deles ajudou, claro, ao crescimento deles.

Ruídos muito reais

Em Cabo Verde, Aveiro e Amadora nasceram os elementos dos MDC. São esses lugares que trazem toques especiais à banda. Pedro Silva (Drupez), por exemplo, vem de Cabo Verde e traz aos sons dos MDC o crioulo do seu país natal. Na cidade da Amadora sente-se um calor e à vontade logo perceptíveis quando o comboio da linha de Sintra abre as portas. Uma alegria constante e contagiante paira no ar, ouvem-se vozes altas na conversa e na brincadeira, e muito barulho nas ruas. Um “Ruído Real” que se para muitos soa a distúrbio e desacato, para outros serve de inspiração à produção de sons soltos, multiculturais e variados. Miguel explica que “é impossível crescer na Amadora e não conhecer Funánás, Kizombas e Fórrós Brasileiros” que tocam alto nos carros que passam na rua, as várias bandas Rock e de Hip Hop da cidade. “A etnicidade e o ambiente multicultural, uma abertura a todos os ritmos e todos os estilos” são aspectos que Miguel trouxe da Amadora como inspiração.

Com o som de uma música de Jazz em fundo, Miguel conta-nos que foi no café em que se fez a entrevista, perto da estação de comboios da Amadora, que foram criadas muitas das letras dos MDC enquanto ele esperava pelo primo para as habituais reuniões da banda. Perto do café, há um grande núcleo que sempre apoiou fortemente a banda e isso fá-los sentirem-se em casa. No fundo da sala, junto à janela e “acompanhado por um café”, Miguel “escrevia as letras das canções” que agora passam de vez em quando na televisão do estabelecimento. Conta que, quando o single “Rolling na Reboleira” começou a passar na MTV, aconteceu um dia estar no café quando começou a ouvir chamar pelo seu nome. “Era a senhora que me serve o café todos os dias a gritar por mim, por me ter visto na televisão”, conta, envergonhado, nada confortável com a situação. Andando pela Amadora, agora acompanhados por Apache, alguns amigos sentados nas esplanadas da cidade da Amadora, cantam “I’m rolling… na Reboleira…!” em vez de chamar pelos seus nomes. E assim é, desde há dois anos, quando foram convidados para tocar no Cargo Club, um conceituado bar de música ao vivo em Londres, onde já tocaram grandes nomes da música internacional.

João Salaviza: “Foi estranho, mas espero passar por essa estranheza mais vezes”

Filed under: Cinema — culturomaniacos @ 21:45
Não estava nada à espera, mas venceu a Palma de Ouro de Cannes com “Arena”. Agora, continuamos nós à espera de mais prémios no futuro do cineasta João Salaviza.

 Fernanda RibeiroPhoto02_7

 Quando, sexta-feira à tarde, nos encontramos com João Salaviza tivemos a certeza que apesar de ser ainda um jovem ele tinha bem a certeza do que queria da vida. Tem 25 anos, acaba de ser premiado no Festival de Cannes com a Palma de Ouro na competição de longas-metragens. O filme chama-se “Arena”. Salaviza confessa que nunca pensou ganhar. Nem queria acreditar quando ouviu o título do seu filme ser pronunciado no Palais des Festivals, na cerimónia de encerramento do festival. “Não estava mesmo nada, nada a espera, e só facto de o filme ter sido selecionado, já foi uma coisa surpreendente e uma grande alegria para mim”, disse-nos, emocionado, à medida que nos ia contando como é que as coisas tinham acontecido.

Não estava à espera, mas também não teve tempo para se mentalizar em relação ao que lhe estava a acontecer. Quando deu por si já estava no palco de Cannes a receber o prémio. “Foi estranho, mas uma estranheza boa, espero passar por essa estranheza mais vezes”.

Arena de João SalavizaQuando lhe perguntamos se há futuro para o filme que fez, responde que as curtas-metragens normalmente ficam afastadas do circuito comercial e muito raramente são exibidas fora do âmbito dos festivais. Mas no seu caso, e pelo facto de ter ganho a Palma de Ouro, já existem distribuidoras interessadas em “Arena”: em Setembro ou Outubro o filme vai chegar às salas. Como pensa que os portugueses vão aceitá-lo? “O filme ter sido premiado para a Palma de Ouro já foi bastante bom”, diz. Mas acrescenta: fez o filme sem pensar nas reacções das pessoas.

Já tem outros projectos, mesmo se leva as coisas com muita calma e se vai continuar a não fazer muitas previsões para o futuro: tem uma curta e uma longa-metragem para fazer. “Quero desligar-me do filme que fiz, e pegar num novo projecto”. Cada vez mais pensa continuar nesta profissão, mesmo não conseguindo ter uma vida fácil em Portugal, porque não é fácil para ninguém viver disto. Mesmo quem é rico, diz, vê-se aflito para pagar a renda ao fim do mês. “Vejo a possiblidade de poder continuar a filmar”, reforça. Vai acabar o curso de cinema no Conservatório. E fica à espera de muitos prémios de novas curtas-metragens. Ficamos também nós.

A música de Paulo Brissos “não tem nome”

Filed under: Música — culturomaniacos @ 21:35

PB5Canta, compõe e produz, é “um faz tudo”. Lançou o primeiro disco em 1994. É autor da canção  “Serás tu”que lhe deu visibilidade nas telenovelas nacionais. Participou duas vezes no Festival da Canção. África, Brazil são as suas mais recentes inspirações. Estudar nos EUA deu-lhe estímulo para mudar.

Lurdes Gomes

 

 

O seu último álbum, intitulado “Concerto Acústico”, é o símbolo do seu regresso. Um misto do que Paulo Brissos era antes de se formar nos EUA e um cheirinho daquilo que será a imagem do seu novo disco ainda em preparação.

Conversa descontraída no bar “café puro”, em Vila Franca de Xira, lugar que frequenta há já muitos anos. É um espaço decorado com garrafas de vinho, sofás em pele, paredes em pedra decoradas com quadros coloridos e o tecto em madeira, tudo mergulhado em luzes discretas e um ambiente com intenso “aroma” a tabaco, as cadeiras em pele sobre um chão ainda por varrer depois de uma noite de convívio. O bar, ainda fechado ao público, foi aberto porque Paulo se sentia bem naquele espaço.

Com o olhar tímido mas simpático, de t-shirt e sapatilhas, falou de forma descontraída e bem-disposta. Diferente da imagem séria que transmitiu no concerto acústico, que se realizou a 20 de Janeiro de 2008.

Não se considera cantor de nenhum género específico mas a consequência de um misto de influências como o “pop-rock ou o “pop-blues”. “O meu tipo de música não tem nenhum nome. Acho que nenhum tipo de música tem um nome devido à riqueza” dos conteúdos.

Porque gosta “de fazer várias coisas, compor, editar e produzir”, considera-se um “polivalente”: umas vezes faz tudo sozinho e outras, como num concerto, precisa do apoio de uma banda.

Os seus trabalhos mais conhecidos como produtor estão nos discos de Paulo Teixeira e de Sérgio Rossi. E participou com temas seus nos álbuns de Adelaide Ferreira e dos Excesso.

Aceitava e aceita convites para interpretar canções que nem sempre são da sua autoria: “pois antes de ser cantor sou um músico.”

 

Trampolins para entrar no mercado

Dois anos depois da sua passagem pelos Estados Unidos, numa formação em produção discográfica, Paulo Brissos regressou a Portugal e lançou o seu concerto acústico “para que as pessoas se lembrem de mim” e para que sirva de símbolo de “um regresso ao mercado”. É assim que justifica o seu último trabalho num tom expectante e optimista. O disco é uma retrospectiva do seu percurso profissional e uma viragem mais experiente e madura na arte de fazer música.

Começou “a cantar desde muito novo em casa”. Iniciou-se no palco entre os 13 e os 14 anos mas, diz, apenas “de forma amadora”. Como cantor profissional só quando tinha 16 anos é que começou “a ganhar uns trocos”. Depois de se tornar cantor e intérprete, tornou-se produtor porque sentiu a necessidade de fazer o seu trabalho “de forma independente”. A sua ida para os Estados Unidos foi “uma tentativa de fazer o trabalho sozinho” sem ter que depender de um produtor, e ganhar competências para ajudar outros cantores que não dominem a produção discográfica.

A sua primeira aparição no Festival da Canção, em 1991, foi o trampolim para entrar no mercado. Tinha apenas 21 anos e mesmo sem vencer não desistiu de voltar a participar em 1993. Foi isso que permitiu o nascimento do seu primeiro disco em 1994, “People Amigo”.

Temas como “Serás tu”, escrito com o sentimento romântico pela sua mulher e que entrou na banda sonora de uma telenovela, aumentou-lhe a visibilidade. Mas as suas letras nem sempre são reflexos da sua vida pessoal, avisa: “Serás Tu” é um tema de “amor que pode ser normal entre pessoas, e não apenas o amor entre um homem e uma mulher”.

É uma história de coragem a de Paulo Brissos. Depois de participar nos dois festivais de canção, e por que é persistente, gravou discos de originais e participou em diversas compilações de telenovelas, a última das quais vem ainda a caminho.

Quando gravou o primeiro álbum, “People Amigo”, ainda procurava a sua identidade profissional uma vez que estava a apalpar terreno. Até a própria capa do disco é enigmática: não é uma fotografia mas um retrato desenhado à mão.

Afirma que o que o distingue no mercado é a tentativa de “transmitir mensagens nas letras, na música e na interpretação”. Rui Veloso é uma das suas influências nacionais, Sting uma forte inspiração estrangeira, como se pode comprovar nas declarações incluídas no “myspace”. Quanto à sua maior vocação, entre cantar, compor ou produzir diz que depende das fases pois vai alternando a dedicação em cada uma das áreas que domina. É leitor “sempre que pode, de livros de teologia e filosofia aplicada”. Gosta também de “livros policiais bem conseguidos e com uma trama bem fundamentada.”

 

A próxima identidade

O seu próximo trabalho já foi de certa forma apresentado no concerto acústico. Os temas “ai Lisboa, senti saudades” e “Mariana no faz de conta” são o exemplo daquilo que será a tendência do seu próximo disco. “Tem como influência alguns ritmos africanos, brasileiros e outros”, desvenda. Os temas africanos são o reflexo das suas visitas a Moçambique e salienta estar “cada vez mais aberto a novas influências”. “Ir cada vez mais ao fundo das raízes étnicas, ritmos pop mais étnicos, fazer algo diferente, este é o caminho que optei” com os novos saberes importados da terra de Obama, consequência da vivência intercultural na escola de produção. Valeu a pena a estadia nos EUA? Acenou com a cabeça num gesto de aprovação.

O segredo dos Ludo para as colunas de todo o país

Filed under: Música — culturomaniacos @ 21:27

Constroem o seu trabalho através de uma miscelânea de experiências por parte de todos os elementos da banda. Uma anarquia criativa. O resultado são canções pop escritas e produzidas para, a partir do Algarve, percorrer Portugal

Luís Soares

O Ludo - segredo

 A agenda estava repleta de entrevistas marcadas para a mesma tarde. Afinal não é todos os dias que os olhanenses O Ludo se deslocam à capital para promover o primeiro disco que tardou quatro anos a ser lançado. Tanta entrevista marcada obriga a promotora da banda a telefonemas a avisar os jornalistas, mas o atraso não foi assim tão demorado. Quando chegaram à esplanada a poucos metros do Parque Eduardo VII, apenas uma lata de refrigerante tinha sido chamada à mesa que esperava.

«Há muitas diferenças entre o que nós ouvimos e esse é o segredo dos O Ludo» defende Paulo Ferreirim, enquanto João Baptista e Filipe Cabeçadas – os outros algarvios que não tiveram compromissos profissionais extra-banda a impedi-los de passar a tarde a vender o seu peixe – se riem da expressão «o segredo». Eles teriam identificado outro segredo, cada um o seu. São uma banda onde o consenso não se gera num piscar de olhos, mas João acredita que têm nisto uma qualidade. Uma entrevista a Adolfo Luxúria Canibal que ouviu recentemente serve de exemplo. Nesta o líder dos Mão Morta defendia que «uma das coisas que sempre os manteve juntos foi o facto de não viverem da banda e que após as suas reuniões, ia cada um para seu lado». Estes algarvios não precisam de se afastar, mas quando tal acontece não agem «como elementos dos O Ludo, mas como o João, o Filipe ou o Paulo, cada um com os seus gostos musicais específicos». Afinal antes de se terem juntado há quatro anos, o Paulo tocava numa banda garage rock, o Filipe numa de metal, o João tocava covers e o David, o Manel e o Nuno – os três elementos que ficaram no sotavento algarvio – tocavam nos Jamaniacs, uma banda rock «mais psicadélica do que os O Ludo e com temas cantados em inglês». Enquanto Filipe e João recordavam esses tempos, Paulo arriscava dizer que esta anarquia criativa «acaba por ser propositada. Daí não termos no álbum o nome de quem fez a composição, as letras, nem a autoria de outra coisa qualquer». Os outros dois olhanenses ouviram as palavras do baixista e estranhamente não esboçaram qualquer tipo de reacção.

 

Exóticos e caseiros

 A anarquia criativa tem sido a base. Até para a escolha do nome da banda. Estavam indecisos e vários haviam sido colocados em cima da mesa. Dos sugeridos, o que obteve melhor feedback foi «O Ludo [que] é uma reserva natural integrada noutra reserva natural que é o Parque Natural da Ria Formosa, na nossa zona, o Algarve» explica o vocalista João, a quem a regionalidade do nome escolhido dá um certo gozo. Porém, o amor revelado à região não se nota nas letras escritas pelos olhanenses, letras estas na língua de Camões, mas isentas de semântica algarvia. Os O Ludo escrevem para as colunas de som de todo o país. É esse o fundamento da pop.

 LudoEscrever canções pop em português volta a estar na moda. O lançamento de novas bandas como Peixe:Avião, doismileoito, Os Quais, dr.estranhoamor, Feromona ou Os Pontos Negros são disso exemplo. O álbum “Nascituro” ser contemporâneo destas bandas é «coincidência porque não o fizemos com a intenção de aproveitar esta onda». O baterista Filipe também admite que isso até poderá ser bom para Os Ludo e agradece a existência de plataformas como os blogues, o Twitter e principalmente o Myspace, na divulgação de todo este material e aproveita para alertar que apesar da divulgação destas bandas «ser excelente para a música portuguesa, esta não deve ser feita de qualquer maneira». Refere-se ao episódio em que Os Pontos Negros rejeitaram a inclusão de um tema do seu reportório na telenovela-juvenil Morangos Com Açúcar. Se tivessem aceite «seria uma faca de dois gumes porque apesar de poderem vir a ganhar muitos ouvintes, ficariam com um rótulo conotado com a série e com o público que a vê». Enquanto Paulo coça pensativo o queixo, João interrompe para acrescentar que depende da telenovela e do tipo de exposição que teria. «Um genérico estava completamente fora de questão». O lifestyle que os Ornatos Violeta ostentavam nos anos 90 permite prever que a banda de Manuel Cruz rejeitaria tal convite e os O Ludo adoram ser comparados ao extinto colectivo portuense, uma das suas principais influências. Pela anarquia da exposição de ideias nota-se que a banda ainda não tinha pensado em toda esta questão.

A portugalidade da banda de “Nascituro” não termina nas canções cantadas em português. Para Paulo, esta portugalidade também se expressa «nas experiências que fazemos e dos instrumentos que utilizamos como os ferrinhos ou os kazoos». Adoram tentar inúmeras experiências na produção dos seus temas com o objectivo de terem um som «algo exótico e caseiro». Na altura em que produziram o disco andavam a ouvir músicos tão distintos como os brasileiros Los Hermanos – que misturam rock com sonoridades mais extrovertidas como o samba, reggae ou ska – ou como os mais introspectivos norte-americanos Interpol, em especial «o último álbum, o “Antics”, que foi uma inspiração para nós devido à forma como as guitarras e os próprios arranjos eram utilizados». Repetem que o seu som é o resultado das experiências de todos os membros da banda que já não são «miudinhos de 19 anos» e, com isto, voltam a perder-se nas histórias dos seus percursos musicais.

A viagem ao baú de recordações dos O Ludo é interrompida. Outra jornalista tinha entrevista marcada para a mesma hora. «Prometo que não demoro e daqui a nada tenho que fazer outra» choraminga ditando o intervalo. Nova garrafa de refrigerante. Quando regressam os O Ludo pedem desculpa, não fossem os algarvios uma banda que – tal como na oração religiosa – reza num dos seus temas «por minha culpa, minha tão grande culpa». A religião desce à mesa dos refrigerantes que há poucos minutos era baú de recordações. No casamento de um amigo, os versos de uma oração deram voltas na cabeça de João. «Na altura não quis utilizar essa expressão», mas após debate com os restantes discípulos da Ria Formosa resolveram encarar o sacrilégio que os faz «pensar no peso dessas palavras». Pensam o que escrevem e o que cantam, não procuram a irreverência punk. Querem mostrar a sua música e chegar às pessoas, não partilham a indiferença indie. Querem atingir as massas a partir do Algarve que não pretendem abandonar e gostavam de «chamar a atenção para o que por lá se passa, tornando-o num ponto de encontro de bandas, não apenas para apanhar sol».

Com este novo slogan para a sua região despedem-se. A tarde ia a meio e ainda tinham que espalhar a sua palavra por outros pontos da capital de um país que pretendem percorrer a partir de Olhão, a cidade de onde os O Ludo constroem portugalidade para as colunas de todo o país.

Fernando Alvim não é um homem de sonhar, é um homem de fazer

Filed under: Humor — culturomaniacos @ 21:07
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Fernando Alvim na rádioNa sua vida não existe espaço para a palavra parar. De dia tem um programa de rádio, à noite passa música pelas discotecas do país, entre tudo isto ainda escreve para publicações esporádicas e inaugura este mês um canal on-line que vai ser emitido a partir de sua casa. 

Sílvia Lopes

“Todos os dias vão surgindo novas ideias, novos objectivos, claro que uns maiores do que outros.” Acordar sem objectivos novos é algo impensável para alguém que tem a vida de Fernando Alvim. O seu dia-a-dia encaixa na sua personalidade, uma constante roda-viva. Parar apenas serve para carregar baterias. Define-se como um homem prático. Prefere “fazer em vez de sonhar”. Para Alvim, há nos sonhos algo de utópico que não combina com a sua personalidade. Acaba de chegar aos estúdios da Antena 3 onde estamos à sua espera. As suas palavras são reconfortantes e ao mesmo tempo intimidadoras: na sua opinião seria muito melhor, para quem está a aprender, entrevistar o padeiro do bairro e fazer dele um super-herói do que falar com um super-herói já feito.

 O verdadeiro Alvim

Quem é afinal Fernando Alvim? Ficou conhecido por apresentar o programa Curto Circuito, na SIC Radical. O início da sua carreira televisiva deu-se na TVI, como o programa Top Rock, onde teve “um início muito auspicioso”. Depois integrou a equipa do CC. Na rádio o seu currículo é bem mais extenso. Começou aos 13 anos numa rádio a 50 metros de casa. Passou pela Rádio Press, rádio regional, até que chegou à rádio Nova Era, no Porto. “E a partir daí foi uma ascensão progressiva, foi acontecendo.” Depois da Nova Era “seguiu-se a TSF, Rádio Comercial e Antena 3. E estou na Antena 3 há sete anos com o mesmo programa que é a Prova Oral, que é um sucesso de longevidade.” As chamadas insistentes do seu telemóvel definem bem a sua rotina. Desde que chegou e que começou esta entrevista o seu telemóvel não tem parado de tocar – aliás os dois telemóveis. Sofre do síndrome da moda, ter um telemóvel para cada rede, ou então um para trabalho e outro para os amigos.

Com a rádio concilia a sua faceta de escritor. Além da sua participação em publicações esporádicas, é autor de três livros, o último dos quais lançou o ano passado. E tem ainda uma faceta DJ, onde é conhecido por colocar musicas como “Abelha Maia” e “Dartacão”.

A música clássica, vinda do estúdio da Antena 2, enche-nos os ouvidos, embala-nos a conversa. A falta de tempo é a maior dificuldade de Fernando Alvim “…é esse o meu problema, não conseguir gerir o tempo. Compro todos os livros que tenham a palavra ‘Aprenda a gerir o seu tempo’ ”. Talvez por não conseguir gerir o tempo tenha fixação por fazer listas. Entre risos explica o método: “Faço listas de tudo e mais alguma coisa. Listas de objectivos, de coisas que tenho que fazer, de coisas que deixei de fazer, de coisas que já fiz com sucesso, ou não. Coisas de que não me posso esquecer. Coisas que tenho que comprar.”. Define-se como homem de listas. “Sou viciado por listas”.

O mais difícil é ter tempo. Ter uma vida dentro da sua vida. Adora estar sozinho, sem fazer nada. Quando isso não acontece, começa a preocupar-se e entra “numa espécie de espiral de violência. Violência interior. E tenho mesmo que ter essa vida, tenho que ter momentos em que estou sozinho, em que não estou a fazer nada. E adoro estar sozinho que é uma coisa que as pessoas não imaginam. Estar comigo, estar sem fazer nada.”

“Não tenho medo das pessoas, nem de estar em directo, nunca tive” – é o que responde quando lhe perguntamos se alguma vez teve de tirar “alguém do ar” por a conversa não estar a correr como previsto. Em sete anos de programa, contabiliza, isso aconteceu apenas três ou quatro vezes. A chave para controlar este tipo de incidentes passa por “ter algum poder de argumentação, o que, modestamente, penso possuir. E acima de tudo mostrar confiança no que estamos a fazer. Isto é, as pessoas perceberem que estamos a dominar a mesa e a dominar o programa. Se perceberem alguma fragilidade vão aproveitá-la. É uma espécie de lei do recreio.”

No seu mundo de escritor, possui uma revista que “só dá prejuízo”, a 365. Mas a relação que tem com o dinheiro, explica, é muito distante. “Uso o dinheiro para aquilo em que me realizo. Se me realizo a fazer uma revista não me importo de gastá-lo [o dinheiro]. O que interessa é realizar-me.” A 365 é a menina dos seus olhos. “Vai agora sair num novo formato, diferente do habitual, vai sair em formato livro de bolso. Uma medida airosa para pouparmos dinheiro no papel, mas também para chegarmos a mais pessoas e a torná-la gratuita”, objectivo que vai ver concretizar e pelo qual tanto esperava. “A partir do 29º número, passa a ser gratuita e a ser distribuída em todo o país. Estou muito contente com isso.”

Esquecer-se da vida que têm é algo que não se pode dar ao luxo e que acarreta consequências incalculáveis. “Cada vez que eu, por exemplo, me esqueço da vida que tenho pago uma factura muito elevada por isso. Hoje vim de Viseu às sete horas da manhã, dormi três horas, e aqui estou às seis de tal da tarde…. E ainda não acabei. Vou fazer o programa [Prova Oral] e depois vou apresentar um espectáculo à Costa da Caparica.”. Os passatempos são poucos, mas com uma vida destas o tempo também é pouco para os poder exercer. O futebol, que na sua adolescência disputava o seu tempo livre com a rádio, é hoje o seu passatempo preferido. Pratica squash e ginásio. Para além de fazer desporto, existe uma particularidade que quem olha para ele não imagina: andar de mota. “Só ando de mota. Não se trata sequer de um passatempo. Andar de mota é uma extensão da minha personalidade. A mota é uma espécie de membro. É um braço. Se eu não tivesse mota…”

Canal on-line

Uma chamada incessante interrompe a conversa, atende e recomeçamos… Para manter a sua rotina mais apimentada, a partir deste mês começa a emitir um canal on-line, que vai ser transmitido em directo de sua casa. Define o projecto como um canal formativo onde vai ter a trabalhar consigo Nuno Markl, José Luís Peixoto, Pedro Paixão, Gimba, Inês Menezes, Raquel Bulha e o psicólogo Quintino Aires e Rui Pedro Tendinha que vai fazer crítica de cinema. O programa, que lhe dá um “gozo diabólico” a fazer, vai ter workshops de iniciação à culinária, aulas de finlandês, aulas de Forrô, Tango Argentino. “Vai ser um canal, parece-me, que vai ser muito interessante…”

Nuno Markl: como o caixa de óculos pançudo se tornou comediante

Filed under: Humor,Susana Ferrador — culturomaniacos @ 20:07

Nuno MarklA palavra dele é de honra. Atende o telefone e simpaticamente marca a entrevista para a mesma hora. Nuno Markl, 37 anos, não tem ar de vedeta mas bem poderia ter. O local da entrevista? A rádio. O local onde consigo dizer as melhores coisas da minha vida, diz.

 Susana Ferrador

 “Mas a menina é licenciada em cinema? E quais são os seus filmes favoritos? Gostou do ‘Gran Torino’?”. A entrevista parece inverter-se e Nuno Markl não esta nada importado com isso. Dentro do pequeno estúdio vazio estamos apenas os dois, isolados do ruído que vem de fora. É inevitável estar com o iPhone na mão e por vezes divide a atenção entre a entrevistadora e o Twitter. “Tenho uns 3000 DVDs em casa, também gosto imenso de cinema, se quiseres posso emprestar-te algumas séries”. Começamos a falar da série Lost e Markl não parece ter pressa alguma. Aliás, mostra grande satisfação. Revela-se um cinéfilo compulsivo, anda viciado no Dexter e diz que “o CSI não lhe chega aos calcanhares, já não tem graça nenhuma”. Recomendamos-lhe que veja Prision Break e confessa que fica noites e noites, perdendo por vezes o controle da vida social, a ver a série de Scofield.

Há uns anos quis ir tirar um curso para o Cenjor motivado pela vontade de ser radialista. Depois disso foi o “estagiário mais feio e mais inteligente” no Correio da Manha Rádio. Mas a sua experiência na Rádio tinha começado muito antes, na pequena e velha Rádio Benfica, atrás da casa da avó “que emitia em dias de bom tempo para além da Amadora”. Desde criança que fazia “programas a fingir” com a irmã e recorda a rádio e as bonecadas dos anos 80 “como as melhores de sempre”.

A sua fama estava ainda longe de começar quando fez “Abílio Mortaça”, programa radiofónico onde interpretava um vendedor de enciclopédias existencialista no Correio da Manha Rádio em 1993. O que é certo é que o programa lhe valeu um convite para voos mais altos. Antes disso era conhecido como o “caixa de óculos”. “Antes disso e muito depois disso, porque já eu estava há muito nas Produções Fictícias e a escrever para o Herman [José] e ainda era o caixa de óculos pançudo, genérico e anónimo e continuei a ser por muitos mais anos”.

Passou a infância amargurado e ainda hoje tem traumas com isso, mas confessa fazer humor diariamente com as experiências de criança. O “caixa de óculos pançudo”, como insiste em definir-se, vem desses tempos, pelos amores nunca revelados e reprimidos da infância, pela timidez, pelo gozo que levava dos colegas de escola. Confessa que a única coisa em que era bom era a fazer desenhos e que viveu com a esperança de que os desenhos fossem a sua chave de salvação para o mundo social. “Quando um dia, os mostrei ao jornalista Joaquim Furtado, ele disse-me que os meus desenhos eram bonitinhos mas que não tinham piada nenhuma, foi o balde de água fria. Os desenhos sempre foram um dos motivos de captação de atenção nos raros momentos em que a tive quando era criança”.

Propomos-lhe, então, que vá desenhando a caricatura da jornalista e ele aceita prontamente.

 

 Humorista de culto

Em 1997, quando O Homem Que Mordeu o Cão o trouxe para a ribalta, tudo mudou. Começaram a chover propostas de trabalho por todos os lados. Ele recorda com saudade os tempos em que as pessoas “andavam à pancada” nos centros comerciais por causa de um autógrafo seu. Pedimos-lhe para não nos desconcentrar e ele responde-nos com uma piada engraçada que vai postar no Twitter. “As vezes encontramos piadas e coisas engraçadas com as mais diversas pessoas e situações. O humorista não pode perder a oportunidade”.

Na altura, em 1997, enfrentou imensos boatos de pessoas que diziam que em público Markl não tinha graça nenhuma, e que só na rádio era interessante ouvi-lo quando estava acompanhado pelos colegas radialistas Pedro Ribeiro, José Carlos Malato e Ana Lamy. Afirma que continua a ser tímido e comedido, precisamente perto de estranhos. Mas sente-se à vontade connosco. Como é que se consegue impedir de dizer graças em público? “Aí é que está: digo pouquíssimas graçolas em público. Sou uma terrível desilusão para muita gente que acha que lá por eu trabalhar em comédia e dizer umas graçolas na rádio, na televisão e na internet, devo ser assim 24 horas por dia. Mas não sou. Na verdade continuo a ser bastante metido comigo mesmo e não particularmente engraçado. Mas já que tenho piada na rádio, e já que esse é o meu trabalho, permitam-me que não tenha muita piada na minha vida pessoal. Costuma dizer-se, e bem, que é errado levar o trabalho para casa”.

Insiste em que falemos de filmes que se vai lembrando pontualmente. Desta vez refere os Simpsons… mas detêm-se: “Tu és jovem, também deves ser mais uma que acha que os Simpsons já não têm piada nenhuma e que a Familly Guy é que é”.

O Homem Que Mordeu o Cão teve um sucesso tremendo e entre 2001 e 2002 muita coisa muda na vida do humorista. Foi nesse ano que teve a primeira experiência como apresentador de TV ao lado de Rita Mendes: primeiro com “Sem Filtro” na RTP e depois com “Cine Xl” na Sic Radical ao lado de Fernando Alvim, um dos seus maiores cúmplices na comédia. “Sentia-me como peixe na água nesse último programa”. Para além de gostar de cinema, adora trabalhar com Alvim, são uma espécie de irmãos talvez por serem ambos “desorganizados e amalucados”. Já vai longe o tempo do “Perfeito Anormal” na Sic Radical que ambos faziam, o programa em que deram a primeira oportunidade a um grupo chamado Gato Fedorento. Hoje ambos são apontados como padrinhos dos quatro comediantes e não o incomoda nada o facto de ser ultrapassado em popularidade por eles. “Acho legítimo, merecido e um motivo de orgulho. Já tive a minha dose de popularidade. Os Gato eram suficientemente bons para singrarem mais tarde ou mais cedo”.

 

Admirador de Herman

Continuou sempre a escrever para comediantes e programas de humor na televisão portuguesa. Foi o responsável por muitas piadas que ainda hoje dizemos todos os dias. Trabalhou arduamente nos guiões de programas como Herman Zap, Contra-Informação, Herman Enciclopédia, Herman 98, Herman 99, Herman SIC, Não és homem, não és nada!, Conversa da Treta, Paraíso Filmes, O Maravilhoso destino de Diácono Remédios, O Programa da Maria e Hora H – este último revelou-se um fracasso de audiências, mostrou que as pessoas estavam cansadas de Herman José. Markl confessa que sentiu alguma culpa por isso mas rapidamente esse fracasso deixou de lhe “tirar o sono”. Continua amigo e admirador de Herman, que considera o maior humorista português vivo. Afirma que provavelmente não teria seguido a carreira de humorista se na infância não tivesse visto tanto de Herman na televisão e na rádio. “É uma referência para mim, é o melhor e isso é uma constatação”.

Olha pela primeira vez para o relógio desde o início da entrevista. Deixa escapar que precisa de chamar um táxi. “Finalmente vou tirar a carta, vou ser pai dentro de dias e quero estar preparado para tudo, finalmente estou um homem mais responsável”.

Ainda antes de chamar um táxi volta a pegar no IPhone, “a internet anda a tirar-me vida social”.

 É conhecido por ganhar a vida a relatar a sua vida na TV, nos blogs, na rádio e no Twitter. Mistura muito a vida profissional e pessoal e gosta disso. Lembra que teve uma infância tão rica em anedotas que esse é um ponto fulcral para o humor que faz hoje. “Consegui fazer carreira a partir de tudo aquilo que fazia de mim uma vítima no recreio da escola. Gostava de ver o que estão hoje a fazer os ‘bullies’ que me faziam a vida negra na escola! Além disso, ter como trabalho relatar a minha vida faz não só com que eu ganhe dinheiro por isso e poupe em terapia.”.

É o rei dos humoristas na Internet. No Twitter é dos portugueses com mais seguidores e actualiza a informação online quase de hora a hora. É um viciado. Tem imensos detractores na Internet, pessoas que se fazem passar por ele e sente constantemente na pele “dissabores dessa popularidade virtual”. “Tenho oceanos de detractores na net. Mas sim, admito que tenho menos do que nos tempos do Homem Que Mordeu o Cão: quando se atinge um certo nível de popularidade, ganham-se detractores às pazadas, muitos deles ex-fãs. Agora que voltei a ser um muito menos ameaçador humorista de culto, perdi muitos desses detractores. Não faço tiradas públicas sobre eles; entro em diálogo com eles. Geralmente para perceber o que motiva alguém a odiar tanto uma pessoa que não conhece pessoalmente, fenómeno que desperta em mim uma curiosidade quase científica.”

Dito isto, oferece-nos a caricatura e vai chamar o táxi à pressa.

 

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